Mesmo com R$ 341,2 bilhões em investimentos previstos até 2029, faltam profissionais com o perfil que a operação moderna exige
A mineração brasileira gerou 226.067 empregos diretos no primeiro semestre de 2025, com 5.085 novas vagas criadas no período, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). São números que expressam um setor em expansão consistente. Mas atrás deles existe uma tensão crescente que representantes do setor já nomeiam abertamente: a oferta de profissionais qualificados não está acompanhando o ritmo de crescimento das operações.
O IBRAM projeta US$ 68,4 bilhões (R$ 341,2 bilhões na cotação atual) em aportes no setor mineral entre 2025 e 2029, dos quais US$ 18,45 bilhões (R$ 92,04 bilhões) destinados a minerais críticos como lítio, cobre e terras raras. Esses projetos exigem um perfil de profissional que o mercado ainda está aprendendo a formar: engenheiros e técnicos que entendem de geologia, automação e análise de dados ao mesmo tempo. A Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM) descreveu esse movimento em março de 2026 como uma valorização crescente da “qualificação híbrida”, que combina formação técnica em mineração ou metalurgia com competências em tecnologia da informação e manufatura 4.0.
O gap entre oferta e demanda de engenheiros no Brasil não é exclusivo desse ramo. Uma pesquisa realizada pelo Google for Startups para a América Latina, em parceria com a consultoria BOX1824, estimou que entre 2021 e 2025 cerca de 53 mil engenheiros seriam formados anualmente no país, enquanto a demanda do mercado chegaria a 800 mil vagas no mesmo período, gerando um déficit acumulado de pelo menos 530 mil profissionais. A engenharia de minas, curso de nicho com oferta concentrada em universidades de Minas Gerais, Pará e Goiás, sente esse descompasso de forma particularmente aguda.
Há uma camada a mais no problema específico da área: a geografia. Parte expressiva dos novos projetos em minerais críticos está em regiões afastadas dos grandes centros universitários. Alexandre Mello, diretor do IBRAM, apontou em fevereiro de 2025 que os desafios logísticos de projetos localizados em áreas remotas dificultam diretamente a retenção de trabalhadores. Atrair um engenheiro para uma mina em operação no interior do Pará ou no norte de Goiás envolve condições muito diferentes das que um campus universitário em Belo Horizonte ou São Paulo consegue preparar o profissional para imaginar.
A transformação tecnológica do setor adiciona ainda outra pressão. A análise da consultoria Compel sobre tendências do ramo em 2026 aponta que cresce a demanda por equipes multidisciplinares capazes de integrar geologia, análise de dados, TI, manutenção e critérios ESG numa mesma operação. O que o setor chama de “mina híbrida” — onde decisões humanas e modelos algorítmicos se complementam — está se tornando a norma operacional. Isso exige uma formação que os currículos mais tradicionais da engenharia de minas raramente oferecem.
As respostas que estão sendo construídas vêm de ângulos diferentes. O IBRAM lançou a UNIBRAM, universidade corporativa que oferece desde cursos técnicos de curta duração até pós-graduação, com foco em competências que as universidades formais demoram a incorporar: gestão de cianeto em operações de ouro, segurança de barragens, planejamento de lavra, ESG aplicado à mineração. A média salarial de R$ 13.800 mensais para engenheiros de minas, registrada pela própria UNIBRAM, é um ativo na disputa por talentos. O problema é que salário nenhum resolve a falta de formados.
O mapa do trabalho industrial projetado pelo Observatório Nacional da Indústria estima que o Brasil precisará formar 14 milhões de profissionais industriais entre 2025 e 2027, sendo 1,6 milhão só em Minas Gerais. É uma escala que não cabe dentro das universidades existentes sem expansão significativa de vagas e sem renovação de currículos. O setor começa a entender que a formação de mão de obra qualificada não é responsabilidade exclusiva do sistema público de ensino, mas também uma agenda estratégica da indústria.
É nesse contexto que o 10º Encontro Nacional da Média e Pequena Mineração, previsto para a Brasmin 2027, em Goiânia, ganha relevância além do debate econômico. Para as empresas de menor porte, que raramente têm universidades corporativas próprias e operam com margens mais apertadas, o acesso a capacitação qualificada e a troca de experiências sobre gestão de equipes em regiões remotas são parte do que define a capacidade de crescer no próximo ciclo. Inscrições abertas em: brasmin.com.br.
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