Com US$ 76,9 bilhões em investimentos previstos até 2030, o setor tenta mudar a cultura e a forma de construir projetos
O Brasil se prepara para um novo ciclo de investimentos em mineração que promete movimentar toda a cadeia produtiva nos próximos anos. A projeção é de US$ 76,9 bilhões (R$ 388,6 bilhões na cotação atual) aplicados no setor até 2030, aquecendo desde fornecedores industriais até serviços especializados de engenharia mineral. O desafio, porém, é que a estrutura atual da engenharia brasileira ainda não parece preparada para responder na velocidade exigida por esse crescimento.
Esse foi o principal tema do seminário “Engenharia Mineral: os desafios para atender ao novo boom da mineração”, realizado em 7 de maio, na sede da FIEMG, em Belo Horizonte. O encontro reuniu executivos e especialistas de companhias como Vale, Samarco, Atlantic Nickel, Aura Minerals, AtkinsRéalis e Andrade Gutierrez para discutir os principais gargalos do setor.
Rodrigo Vilela, CEO da Samarco, abriu os debates destacando que os desafios da mineração atual vão além da capacidade técnica. Segundo ele, a experiência da companhia após o rompimento da barragem de Fundão mostrou que grandes falhas também estão ligadas à cultura organizacional e à forma como decisões de engenharia são conduzidas e questionadas dentro das empresas.
A discussão sobre mudança cultural também apareceu na fala de Maria Teresa Barros, diretora de Performance de Projetos da AtkinsRéalis. Para ela, o principal obstáculo à adoção de novas tecnologias não é técnico, mas estrutural. Enquanto áreas como engenharia, sustentabilidade e operação seguirem atuando de forma isolada, a inovação tende a permanecer limitada a projetos-piloto.
A Vale apresentou sua visão para a mineração do futuro, baseada em integração operacional, frota autônoma, redução de rejeitos e metas de neutralidade de carbono. A mensagem foi clara: sustentabilidade deixou de ser um diferencial e passou a fazer parte das exigências do mercado e dos investidores.
O licenciamento ambiental também apareceu entre os principais desafios. Os participantes apontaram que muitos projetos atrasam não apenas pela burocracia estatal, mas porque os requisitos ambientais ainda são incorporados tardiamente aos projetos de engenharia. A avaliação é de que as etapas regulatórias precisam ser consideradas desde o início para evitar atrasos e aumento de custos.
Outro ponto recorrente foi a necessidade de acelerar a incorporação de tecnologias como inteligência artificial, robotização, geomática e novos métodos de processamento mineral em escala operacional. Ao mesmo tempo, executivos alertaram para a escassez de profissionais qualificados capazes de operar essas soluções dentro das minas e plantas industriais.
O debate reforça um movimento cada vez mais evidente na mineração brasileira: o setor vive um momento de expansão, mas precisará modernizar rapidamente sua engenharia, formação profissional e capacidade de execução para acompanhar o ritmo dos investimentos previstos para os próximos anos.
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