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O que Angra 3 e Santa Quitéria significam para a mineração brasileira

Enquanto o governo adia a decisão sobre a usina nuclear mais cara do país, um projeto no interior do Ceará aguarda licença para extrair a maior reserva de urânio do Brasil

Angra 3 tem 67% de avanço físico, está parada desde 2015 e acumula uma conta que ninguém quer assinar. O estudo do BNDES, divulgado em novembro de 2025, chegou a uma conclusão pouco confortável: concluir a usina custa R$ 23,9 bilhões, e abandoná-la definitivamente custaria entre R$ 21,9 bilhões e R$ 25,9 bilhões. O governo adia a decisão há anos. O CNPE, o Conselho Nacional de Política Energética, votou em dezembro de 2024 pelo adiamento, e o tema seguiu em aberto ao longo de 2025, com a ministra da Gestão, Esther Dweck, sintetizando o impasse numa frase direta: não é simples parar porque o custo de não continuar é muito próximo ao de continuar.

Angra 3, quando concluída, terá capacidade de 1.405 megawatts e produzirá cerca de 12 milhões de MWh por ano, o equivalente a 70% do consumo do estado do Rio de Janeiro. Diferente de hidrelétricas, que dependem de chuva, ou de solar e eólica, que dependem de sol e vento, uma usina nuclear opera com fator de capacidade acima de 90% ao longo de todo o ano. Em 2024, Angra 1 e Angra 2 juntas responderam por cerca de 2,5% de toda a geração elétrica do Brasil, mas por mais de 15% da geração em momentos críticos de seca do sistema hidrelétrico. A decisão sobre Angra 3 não é só de infraestrutura: é de segurança energética.

A cadeia que alimenta essas usinas começa no subsolo. O urânio usado como combustível nuclear nas centrais de Angra é extraído no Brasil, na mina de Caetité, na Bahia, operada pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB). O concentrado de urânio, chamado de yellow cake, é exportado para enriquecimento no exterior e volta ao Brasil já processado como pastilha de combustível. O país domina a tecnologia de enriquecimento, operada pela INB em Resende, no Rio de Janeiro, mas a planta atual atende apenas 60% da demanda de Angra 1. Para que o Brasil avance em autonomia no ciclo do combustível nuclear, precisa tanto de mais capacidade de enriquecimento quanto de mais urânio extraído em território nacional.

É aí que entra o Projeto Santa Quitéria, no interior do Ceará, a 222 km de Fortaleza. A Fazenda Itataia abriga a maior reserva de urânio do Brasil: aproximadamente 80 mil toneladas do mineral, associado a 8,9 milhões de toneladas de fosfato. O consórcio formado pela INB e pela Galvani Fertilizantes está em processo de licenciamento ambiental junto ao Ibama desde a entrega do EIA/Rima. A expectativa, conforme declaração do gerente de licenciamento do consórcio em novembro de 2024, é obter a Licença Prévia em 2025, iniciar obras em 2026 e chegar à operação comercial entre 2028 e 2029. O projeto prevê investimento de R$ 3 bilhões e produção anual de 2.300 toneladas de yellowcake, além de 1,05 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados.

O impacto regional esperado é considerável. Durante a fase de implantação, prevista para o período entre 2026 e 2029, o projeto deve gerar cerca de 7 mil empregos diretos e indiretos, com massa salarial estimada em R$ 135 milhões. Na operação plena, a projeção é de 3 mil postos de trabalho permanentes, R$ 110 milhões anuais em salários e R$ 40 milhões em tributos, segundo estimativas da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec). A Galvani projeta ainda que o PIB do município de Santa Quitéria pode ser alavancado em até dez vezes com a operação da mina. Para uma região do semiárido com base econômica limitada, esses números têm peso concreto.

Há uma particularidade técnica do Projeto Santa Quitéria que merece destaque: o processo de separação de urânio e fosfato por calcinação, desenvolvido para o projeto, é inédito no mundo. A Galvani afirma que existe apenas uma planta similar em operação no planeta, e Santa Quitéria seria a segunda. Isso cria uma dependência de tecnologia proprietária, mas também uma vantagem competitiva: quem dominar esse processo estará na posição mais eficiente para explorar jazidas mistas de urânio e fosfato, que não são raras na geologia brasileira.

O que conecta Angra 3 e Santa Quitéria é mais do que a cadeia do combustível nuclear. Os dois projetos representam uma escolha que o Brasil ainda não fez de forma definitiva: o país quer ou não quer ter soberania na geração nuclear? Essa pergunta tem custo qualquer que seja a resposta. Continuar exige investimento e decisão política. Desistir enterra décadas de tecnologia acumulada, compromete a autonomia do ciclo do combustível e deixa Angra 1 e 2 operando sem sucessor. O setor mineral entra nessa equação como o elo que extrai a matéria-prima do início de tudo. E a decisão sobre esse elo começa no licenciamento de uma fazenda no semiárido do Ceará.

A Brasmin 2027, em Goiânia, ocorre num momento em que tanto Santa Quitéria quanto Angra 3 terão, muito provavelmente, definições mais concretas do que têm hoje. Se o licenciamento avançar e as obras de Santa Quitéria iniciarem conforme o cronograma, a cadeia de fornecimento de insumos, equipamentos e serviços para a mineração nuclear estará em formação. Para inscrições e mais informações sobre a feira, acesse: brasmin.com.br

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