Estudo da Aggreko com especialistas de seis países mostra que infraestrutura energética, segurança e logística pesam tanto quanto a geologia na hora de expandir operações
A mineração latino-americana enfrenta um paradoxo. Nunca a demanda por minerais essenciais para a transição energética e a digitalização da economia foi tão alta, mas também nunca ficou tão claro que expandir a produção depende de fatores que vão muito além da qualidade dos depósitos minerais. É essa a principal conclusão do e-book “A nova equação da mineração na América Latina: os limites invisíveis entre energia e operação”, lançado pela Aggreko com base em 21 entrevistas realizadas no Brasil, Chile, Argentina, Peru, Equador e México.
O levantamento aponta que os principais obstáculos à expansão do setor já não estão apenas no subsolo. Disponibilidade de energia, logística, acesso à água, licenciamento e gestão de riscos territoriais aparecem como os fatores que mais pesam hoje na competitividade das operações, muitas vezes mais até do que o próprio minério explorado. Para Fernando Tanaka, diretor de Vendas de Mineração da Aggreko, a demanda global por esses minerais impulsiona o setor, mas também aumenta a pressão por operações mais eficientes e com menos emissões.
Essa mudança de perspectiva aparece de forma recorrente nas entrevistas. Segundo Tanaka, o diferencial competitivo de uma mina hoje está menos no que é extraído e mais em tudo que sustenta a operação ao redor dela: energia, transporte, água e segurança. O padrão se repete tanto em áreas remotas da Amazônia quanto em projetos de altitude nos Andes, o que sugere que o desafio não é regional, mas estrutural.
A energia concentra boa parte dessa equação. O estudo mostra que ela deixou de ser apenas um insumo e passou a ter papel estratégico, ligado à continuidade operacional, à segurança dos trabalhadores e à descarbonização. Em operações remotas, o consumo energético já figura entre os principais custos do negócio, e a energia se torna, segundo Tanaka, um fator crítico para a própria sobrevivência da operação.
O problema fica mais evidente fora do Sistema Interligado Nacional. Na Amazônia, várias operações dependem de geração própria e precisam de redundância dobrada, já que uma falha de energia ali não tem alternativa imediata. Há também uma dimensão de segurança que cresce junto com a profundidade das minas: a cada 100 metros a mais, a temperatura sobe cerca de um grau centígrado, o que torna a refrigeração subterrânea uma questão de segurança operacional, não apenas de conforto, segundo Tanaka.
Apesar dessa pressão, o estudo identifica uma vontade coletiva de avançar para uma matriz mais limpa: 66% dos entrevistados associam o futuro do setor a soluções energéticas mais sustentáveis. Mas essa ambição esbarra na realidade das operações. Debora Lemes Tavares, Head de Sustentabilidade Latam da Aggreko, resume o desafio como um equilíbrio entre cumprir metas de descarbonização e manter a confiabilidade das operações, num cenário em que empresas ainda precisam combinar geração convencional, fontes renováveis e sistemas de armazenamento.
Por fim, o levantamento mostra que, apesar das diferenças regulatórias e geográficas entre os seis países analisados, os gargalos se repetem. Segundo Tanaka, uma mineradora em Minas Gerais pode enfrentar desafios muito parecidos com os de uma operação na Cordilheira dos Andes, o que abre espaço para que soluções testadas em um país sirvam de referência para outros. A mensagem central do estudo é que o próximo ciclo da mineração latino-americana não será definido só pela riqueza mineral disponível, mas pela capacidade de garantir energia confiável e infraestrutura resiliente para sustentar esse crescimento.
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